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quarta-feira, 20 de novembro de 2013

GRANDE ROTA DAS LEZÍRIAS ( 60 km)



Depois dos 50kms entre os Castelos de Óbidos e Torres Vedras, a muito reclamada Caminhada Ultra-Longa (CUL), que se desenrolou no palco da Lezíria Ribatejana, acompanhando o curso do rio Tejo desde a vila de Azambuja até à estação ferroviária de Mato Miranda.




É aquele tipo de empreendimento que requer planeamento, encontrar o percurso que reúna as características pretendidas nem sempre se afigura fácil, e que a ser discutido requer cláusula de confidencialidade que a cumplicidade entre os membros do Grupo dispensa. Revelações antecipadas, que se deixem escapar por pura ingenuidade, redundarão inevitavelmente na censura alheia e comentários do tipo “60kms? Em quantos dias”, “Enlouqueceram de vez”, “Ora tretas”…
Falemos de números e aqui ficam alguns para a posteridade:
  •          Início: 5h30m
  •          Duração total (incluindo pausas): 13h30m
  •          Altimetria: 350 m de altitude positiva acumulada
  •          Nº de participantes: 24
  •          Distância percorrida: 60kms
  •          Distância acumulada percorrida: 1.410 kms
Como curiosidade, registe-se que, este conjunto de Caminheiros, percorreu uma distância total de 1.410kms, que em linha recta daria para ligar, entre outros Lisboa a Paris, Lisboa ao Mónaco, Lisboa à Madeira, Lisboa a Argel, Lisboa a Marrakech, até mesmo ir e voltar de Lisboa a Madrid.
Existe um outro universo que escapa à frieza numérica, senão vejamos:

·         AZAMBUJA

Por volta das 5h15m, quando era suposto ainda se estar em R.E.M., já se reúnem as hostes no local da concentração, estação ferroviária da Azambuja, numa admirável pontualidade que nada tem de lusitana e em que ninguém quer disputar o lugar de último a chegar, ainda que possa ter sido traído por falhas de GPS.


Ainda breu, percorrem-se os primeiros kms



 Logo surgem as primeiras dificuldades, prontamente resolvidas pelos Engenheiros de serviço



Ao raiar do dia: transposição de mais um obstáculo natural, onde ocorreu o bizarro incidente do desaparecimento da parte do meio do bastão; por campos agrícolas

 

 

·         PORTO DE MUGE

Primeira paragem para café ao fim de 15 kms



A marcha prossegue que o Caminho ainda é longo




·         RUMANDO A SANTARÉM



Doçaria regional, sempre muito apreciada



Ao longo do Tejo




Passando por Alfange*, na base da subida para Santarém 


*Gadanha, um tipo de foice, própria para colheita de cereais

 
“Quantos são, quantos são??? 60 kms? Acho que não tenho patas para isso…” 





Subida para Santarém




Nunca uma subida foi tão louvada após esforço contínuo nos mesmos músculos nos algo monótonos estradões da Lezíria
 
·         SANTARÉM


 


Portas do Sol, foto de grupo




Almoço dos pés descalços












·         RIBEIRA DE SANTARÉM 






Onde nos despedimos de uma das nossas Caminheiras


·          
           VALE DE FIGUEIRA

Campos de pimentão doce




Como nota gastronómica, refira-se que em Portugal, colorau é o nome dado à paprika – especiaria que resulta do pimentão doce seco e moído. De cor vermelha e travo ligeiramente picante, esta especiaria faz parte do goulash, especialidade húngara feita à base de pedaços de carne e vegetais. Muito usado em sopas e molhos, liga bem com carnes, aves e peixes, sendo muito apreciado em enchidos.
Illuminati

 

Campos de milho, campos de sonhos




Quando cai a noite no campo




·         MATO MIRANDA

Estação ferroviária de Mato Miranda


   




Por volta das 19h chegada a Mato Miranda, já noite escura e faltam 5 kms para o cumprimento do destino final. Em reunião no café local e após consulta às bases, conclui-se que não estão reunidas as condições necessárias para prosseguir a marcha. Apesar de afirmarem que estão perfeitas condições físicas, os elementos da linha dura cedem facilmente, vá-se lá saber porquê.
Voltando aos números, uma CUL de 60kms sempre acresce 20% à CUL anterior.

“Apenas” acrescentar que os quilómetros não percorridos foram amplamente compensados por um espírito de camaradagem e momentos de boa disposição que deixaram, no mínimo, intrigados os viajantes do comboio da linha da Azambuja que circulavam no composição que levou os Bravos Caminheiros de volta às suas viaturas. Entre holas, YYYYYESSSSSS, anedotas, risos, lágrimas, houve um pouco de tudo, ampla compensação para bolhas nos pés, assaduras, músculos doridos, fadiga.

·         DETALHES QUE ESCAPAM À FRIEZA NUMÉRICA

   

 






sexta-feira, 18 de outubro de 2013

YESSSSSSSSSSSSSSS







Eldelweiss Foto: Céu Miguel



Fabricados em terras de valsas, Mozart, altas montanhas, eldelweiss e gente trabalhadora e disciplinada, acalentávamos a legítima ambição de servir caminheiros, no seu calcorrear de trilhos perfeitamente delineados, rendilhados de flora alpina, ainda que em clima austero, em atitude de harmonia e comunhão com a Natureza. Enfim, para nós o Mundo não era mais do que um Postal da “Música no Coração.

Destinados originalmente para loja em Salzburg, acabámos por ser desviados para Lisboa. Isso até nem nos preocupou dado os comentários que ouvimos acerca dessas gentes de países periféricos: “esses tipos do sul não querem trabalhar, são todos uns preguiçosos”, “só sabem gastar o que nos custa a ganhar e poupar”, “só querem praia”, “deslocam-se 27m que sejam nos seus BMW, Mercedes e Audis só para tomar café”, “levantam-se tarde”, “desporto para eles é futebol de sofá e de café” … bla bla bla


Pelintras como estão e calões como são, legitimamente acalentámos a esperança de nem sair da loja. Até que nos aparece fraulein, que de Maria Von Trapp, nem o nome, determinada a levar 1 par de bastões. Lá explicava à empregada que precisava de material novo por causa de incidente ocorrido em “combate”, num linguajar que para nós ainda era pouco inteligível.

Após 1 semana de descanso, e para nosso espanto, bem cedo junta-se a um grupo chefiado por um tipo de tez morena, com voz talhada para cantar o fado de Coimbra, e desatam a percorrer caminho que de trilho tinha muito pouco, só parando umas horas depois para o que chamaram de “banana time” (vá lá que isso percebemos…). A toque de caixa, lá prosseguiram a marcha e quando os ânimos já esmoreciam alguém lá do fundo grita qualquer coisa como “porrrrraláanimarrrrrizzzztooo uuuuhh huuuhhh”. Ainda fizeram uma breve pausa para almoço e chegados ao fim passaram ao “alongamento time”, rumando depois para o café mais próximo para tragarem cerveja, com os mais fanáticos a discutirem rankings, a verificarem kms percorridos e altimetria da jornada, entrecortado por delírios sobre o desenho da caminhada, até se despedirem prometendo reencontro na semana seguinte. Só podia ser piada: 1 caminhada, ainda é como o outro, mas consecutivamente, IMPOSSÍVEL!


Momento de rara felicidade, Ruta del Cares, Picos da Europa



Pois não é que, semana após semana, a cena repetiu-se e foi piorando. E sempre utilizando palavras de código, num léxico nem por isso variado e que inclui: “insanidade”, “caminhada parcialmente reconhecida”, “doçaria regional”, “nha nha”, “nham nham”, “folha de plátano”, com slogans repetidos até à exaustão: “Bora lá animar isto”, “O bolo é de quê”, “Queremos almoço”... tratando-se por nomes aparentemente sem sentido e que não constam dos respectivos documentos de identificação.

Nunca percebi o que motivava aquele Grupo de fiéis mas NADA os parecia travar: madrugar aos sábados e/ou domingos, enfrentar intempéries, chuvas (e muita), calores tórridos (40º), densos nevoeiros (desafiando alertas de todas as cores imagináveis e outras), transpor obstáculos naturais (ribeiras, canaviais, silvados) e outros (vedações electrificadas, cavalos em fúria, agricultores ressabiados), percorrer pisos irregulares, cheios de lama, cascalheiras, areais… NADA; chegaram ao cúmulo de almoçar, imagine-se numa manjedoura de um curral, com um deleite de quem estava a degustar uma refeição no Tour d’Argent.

Acresce ainda que nem manutenção do material a “Julie Andrews” se dignou a fazer. Estamos para aqui cheios de lama, mossas, raspões, desfigurados, enfim um horror! E pior, nem descanso nos dava já que tínhamos de passar o resto da semana trancados na bagageira da viatura, a sofrer as agruras de deslocações diárias (escutar vitupérios dirigidos a outros condutores que fariam corar a mais desbocada das vendedeiras do Bolhão, sofrer com acelerações e travagens constantes, etc.).

Ultimamente meteram na cabeça que haveriam de fazer 70kms e lá discutiram os planos. Foi aí que comecei a conjecturar, a forma de nos livrarmos deste karma. Sim que não fomos feitos para isto. No entanto, o meu par pareceu pouco convencido e com hesitações próprias de quem se rendeu à causa da insanidade dos NT (Não Trilhos).

A oportunidade surgiu nessa caminhada que afinal encolheu para os 65kms; iniciaram as hostilidades às 5h30m e ao nascer do dia passaram uma vala, eu encolho-me e salto para o lado. Metros depois, vejo o ar estupefacto da “Julie” a solicitar ajuda para recompor o bastão que encolhera sem explicação. O Chefe desiste de resolver a charada. Outra caminheira, que afirma ser versada na matéria, apercebe-se que falta a parte do meio. A “Julie” não se conforma e, não se dando por vencida, volta para trás à minha procura. Ora eu não lhe iria dar essa satisfação e ela acaba por cancelar a busca , até porque ainda se arriscava a nunca mais apanhar os restantes caminheiros e a ficar irremediavelmente para trás no ranking. Assim que me senti vitorioso soltei um valente “YEEEEESSSSSSSS”!

P.S. Quanto a meu par, desejo-lhe boa sorte pois parece que se vai juntar a bastão italiano que consta ser de estimação