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sexta-feira, 14 de junho de 2013

Um rapto para os lados da praia do Magoito

Entrara para a GNR convicto de que a ordem e a justiça iriam deixar de ser o caos e desconforto que imperam na sociedade quando, com os seus prestimosos serviços, a caça à reprodutora  gatunagem enchesse  as prisões deixando as ruas limpas para que, em sossego e sem temor, os cidadãos gozassem a liberdade a que têm direito. A sua dedicação total e a folha de serviço sem nodoa, levaram-no à promoção a sargento antes do tempo exigido para o efeito e, dai, ao comando duma esquadra, levou menos tempo do que o que teve para colocar os distintivos.
Tinha como ambição ser detective. O seu mestrado, dizia-o, ia de Poirot a Holmes passando por Maigret, Bond, inspector Closeau e Get Smart. Da televisão sugava todas as series policiais, tendo um carinho especial pela que tem uma equipe que procura pessoas…  “Sem rasto”. Sentia-se em absoluto coberto de todas as faculdades requeridas para pôr em prática os processos de investigação que detectam e apanham criminosos para os condenar e, em consequência, reparar os males que eles deixam pelo caminho. Mas, as investigações aos abanões provocados pela insolente vilanagem, na sua zona de acção, passavam para outros departamentos de sabedoria analítica, e o processo levava com todas as práticas previstas nos manuais que nas escolas para detectives ensinam. Era coisa muito científica. Para ele um pouco inútil, achava que indo atrás do faro com a intuição ligada, bastava para descobrir os desordeiros. Só que, na sua rotineira e penosa tarefa de caçar multas, nunca tivera oportunidade de o demonstrar.
Conhecia toda a costa da Ericeira ao Cabo da Roca e todas as praias nela arrumadas mas, a elas só chegava quando chamado para autuar as infracções ao código de estrada ou para pôr ordem em arrufos de automobilistas zangados por estarem cientes da sua razão ao tentarem passar dois num espaço onde só um cabia e os para choques das viaturas sofriam os danos dum encosto inevitável.
Tocou o telefone e ele pensou tratar-se de mais uma desobediência civil ao bom comportamento. Quando do outro lado veio a denúncia de rapto, as orelhas esticaram para que o canal auditivo aumentasse e o seu receptor de informação captasse em melhores condições o que era emitido na outra ponta do fio. Apontou as notas que lhe eram enviadas e preparou-se para investigar no terreno este caso que lhe caíra do céu, por sorte no seu telefone e num dia de descanso para as patentes mais sapientes. Tirara da gaveta o que aprendera  e munira-se de toda a perspicácia para levar em diante a investigação que a denúncia exigia. Em menos de três horas indagou, observou, deduziu e foi seguindo o rasto deixado na pista até à Praia do Magoito onde se encontrava. O rasto acabava ali, era ali o centro da investigação.
Foi recolhendo informação, pela rua ou no restaurante, entre os passantes que por ali andavam e, com ajuda do seu olho de falcão, a dedução era óbvia: andava por ali um grupo altamente suspeito que dali partira nas primeiras horas da madrugada deixando viaturas que, seguindo a sua intuição, deveriam estar à espera dos respectivos donos. Era portanto um caso para pôr em prática outro dos seus brilhantes predicados: a paciência. Pacientemente esperou pela fonte suspeita com a convicção, sem reservas, de que esta lhe traria a solução para o crime que finalmente lhe daria o devido reconhecimento.
A espera permitia-lhe um pouco de evasão ao seu casulo profissional. Vestiu os calções de banho e mergulhou nas ondas que o mar fazia morrer na areia. Quando despertou do seu breve sonho, pagou o café que bebera e o travesseiro que comera e foi para o miradouro sentir a brisa vinda do oceano que banhava aquela bonita estância de veraneio. Ali, embebido no enlevo de tão encantador isolamento, juntou os pedaços do que investigara e foi compondo a solução para o caso, faltava-lhe ouvir o ou os suspeitos para concluir o processo e um sorriso invadiu-lhe o rosto, o caso era seu e ninguém iria deixar nos padrões do esquecimento a celeridade da sua conclusão.
Alarido galhofeiro era o que vinha duma arriba ali ao lado, olhou nessa direcção e viu um grupo de gente animada que chegava de mochila às costas abancando no passeio enquanto faziam algazarra tão estridente que o mais duro de ouvido ouviria sem esforço. Desmochilaram-se e iniciaram uns estranhos movimentos com comando repartido por peritos na arte a que os ignorantes obedeciam fazendo figuras de rara anormalidade. O patusco bailado, que era o mais parecido com o que estavam a fazer, estava bonito e bem disposto mas ele tinha uma missão a cumprir e esperar mais podia amolecê-lo retirando-lhe
objectividade crucial para o inquérito, por isso:
- Boa tarde! Fala-vos o Sarg Mendonça oficial da GNR, peço desculpa por interromper as vossas brincadeiras mas tenho urgência em falar com alguém que represente este grupo…
- Sou eu! Pode falar comigo! Passa-se alguma coisa?
- O seu nome por favor?
- Francisco!
- Sr Francisco! O que se passa é que os srs são suspeitos de terem cometido um rapo e eu necessito de vos fazer umas perguntas, solicito a vossa presença, sem recusas, na esquadra sob o meu comando.
- Rapto!? Mas afinal quem raptamos nós? Desculpe mas não vamos ser detidos sem mais nem menos.
- Ora ai está um indício de culpa! O Sr. não nega o crime apenas ignora o género e a identidade da vítima! Quanto ao não quererem ser detidos mostro-vos o documento que vos intima à presença na esquadra para interrogatório. Façam favor de me acompanhar.
Na esquadra e numa sala cheia de gente agora mais carrancuda.
- Ora vamos lá! Facultem a vossa identificação ao Cabo Cosme para que fiquem registados nos autos. Quanto a nós sr Francisco, conte-me quem sois e o que fizeram hoje até ao nosso encontro?
- Oh sr Agente…
- Sr Sarg Mendonça se faz favor!
- Peço desculpa! Sr Sag Mendonça, nós somos um grupo de amigos que se encontra um dia por semana, aos fins de semana, para fazermos umas caminhadas, hoje foi mais um, encontramo-nos na Praia do Magoito e fomos andando por ai.
- Por ai por onde? Por onde começaram por onde passaram?
- Então iniciamos atravessando a praia, subimos e descemos os montes do outro lado…
- Espere ai! Está a dizer-me que subiram aqueles montes a pique que não têm estrada nem caminhos por onde andar?
- Sim! Foi isso mesmo…
- Foi foi queu tava lá e custou-me baita burro!
- Quem é você e onde foi arranjar essa mini que tem na mão?
- Ê sou o “mechilas” venho com eles e a mini veio dali do frignifique…
- Mas como é que você de lá a tirou? Eu não consigo e já me lá vão algumas moedas.
- Só mencostê ó báu o resto ele fez sozinho…
- Bem, traga uma para mim e fique ai sossegado! Quanto a nós sr Francisco, e depois?
- Depois foi andar mais para o interior por estradas, pinhais, planícies, algumas ladeiras, pequenas estávamos a guardar as forças para mais tarde, e assim chegamos a Catribana onde fizemos uma pausa para o Banana Time…
- Banana Time!? O que é isso?
- É o que chamamos à pausa para comer qualquer coisa. Normalmente come-se uma banana por isso o nome e hoje até tivemos bolinhos de canela para adoçar a boca.
- Huuuummm… e depois?
- Fomos andando até às arribas que dão para a Praia da Vigia e dai descemos até lá abaixo…
- Desceram até lá abaixo!? Por onde? Aquilo não tem caminho e o passadiço de madeira para além de partido nem perto da ponta da arriba chega…
- Mas foi por um trilho que lá existe que descemos, com cuidado, de joelhos, sentados, ajudando-nos uns aos outros, foi duro, levou tempo… mas foi divertido!
- Huuuummm… e depois?
- Fomos pela praia e mais à frente subimos a ravina pelo trilho…
- Dos pescadores! Esse conheço! Só por lá passa quem vai para a pesca e quem vai para a praia andar com tudo ao léu, é uma pouca vergonha! E depois?
- Depois o destino foi a Samarra! Repousamos, almoçamos, uns banharam-se no mar, um ficou por lá…
- Um ficou? Quem? Precisamos do nome dele! É suspeito como os outros, se forem considerados culpados ele também o será. E depois?
- Subimos a falésia até ao topo…
- Pelo carreiro que passa ao lado do rio de onde se vê uma Azenha?
- Não! Pelo monte que vai até à ponta da praia…
- Mas isso é praticamente direito e sem caminho! Quer-me fazer de parvo? Acha que eu vou acreditar nisso?
- Olhe… se não acredita é consigo… eu só lhe estou a dizer a verdade!
- Huuuummm… e depois?
- Passamos pelo “Casal Pianos”, fizemos a fotografia de grupo e o resto foi o destino que trazíamos quando iniciamos a caminhada, chegados aqui já o Sr Sarg Mendonça sabe o que se passou.
- Muito bem! Um depoimento bem elaborado e melhor decorado! Os Srs esperam que eu acredite naquilo que acabo de ouvir? Subir e descer ravinas e montes sem caminhos além de…
- O sr. Sarg Mendonça dá licença?
- Diga Cabo Cosme!
- É que um dos acusados tem fotografias que mostram por onde passaram!
- Mas você está do lado de quem? Mostre cá isso!









- Huuuummm… 

                                                   - Huuuummm… 






                                                                                                - Huuuummm…

E mais alguns Huuuummm… depois
- Estão bonitas mas não provam nada! Podem ser montagens! Agora há técnicas para tudo…
O proprietário da máquina
- Mass qui montagens? Nóss ainda não sáimoss daqui!
- Ah mas podem fazer manipulação ao tirar as fotos e fotos tiradas pelos acusados não podem servir de prova. Se é o que têm para vossa defesa não chega e como tal passam de suspeitos a acusados de rapto e sequestro dum individuo de raça canina…
Um coro de indignados
- UM CÃO!? SOMOS ACUSADOS DE RAPTAR UM CÃO!? OUVIMOS BEM!?
- Sim! Ouviram bem! Vou coloca-los em prisão preventiva onde aguardarão julgamento…
- O sr. Sarg Mendonça dá licença?
- Diga Cabo Cosme!
- Está um senhor ao telefone que deseja falar consigo!
- Diga que não estou!
- Mas é o senhor que telefonou de manha a denunciar o rapto do cão…
Há um enorme alarido na sala
- Chiuuu, calem-se, deixem ouvir… estou sim fala Sarg Mendonça… … o cão já apareceu? Como o cão apareceu?... … partiu a corrente e fugiu, e foi para onde?... … não sabe!? E agora onde é que ele está?... … ah, já está em casa! bom eu tenho aqui os Srs que o desencaminharam, quer acusa-los de alguma coisa?... … não quer acusa-los de nada? E o que é que eu faço com eles?... … mal entendido!? Foi um mal entendido!? Eu devia era prende-lo a si também! Com licença!
Desliga o telefone
- Bom, afinal parece que não houve rapto!
- Se o Sr Agente nos tem dito do que se tratava e acreditasse em nós, tudo isto era escusado… agora devíamos nós acusa-lo por danos irreparáveis nas nossas vidas… queremos todas as acusações contra nós apagadas os autos rasgados e um pedido de desculpas em directo nos noticiários mais vistos das tv´s… podemos ir embora?
- Po… não! Ainda temos duas acusações contra vós! 



Uma viatura mal estacionada e distúrbios na via publica impedindo o andamento duma viatura que passava!




Cabo Cosme traga cá os processos!
- Sr Sarg Mendonça os processos foram arquivados por  falta de indícios de culpa…
- Mas você está a falar de quê? Então não há fotos e a denúncia dum condutor?
- Há fotos duma viatura mal estacionada mas ao investigar o local verifiquei que a viatura em causa não estava no parque que a foto mostra mas noutro e bem estacionada… quanto à denuncia de mau comportamento, o denunciante retirou a queixa alegando que se atrapalhara ao ver tanta gente e deixara a viatura que conduzia calar-se e, com o stress a ralá-lo descarregou a ira nas pessoas que apenas se divertiam, há uma foto que mostra isso mesmo.
Era difícil não perceber toda a frustração transformada em ira por ver fugir entre os dedos grossos carregados de anéis, o caso que o levaria às primeiras páginas dos jornais especializados em escândalos, e foi com a voz embargada expelindo palavras azedas que disse:
- Não tenho nada contra vós podem sair quando quiserem.
Num instante ficou sozinho na sala. Ia levar o seu tempo a recompor-se do rombo que acabara de levar mas não era de baixar os braços nem sacrificar a postura e foi já pensando que outra oportunidade lhe apareceria quando entrou alguém
- Atão até mais ver mê sorjas…
- Você ainda aqui anda? Adeus! Já pagou a mini?
- Ê na mê sorjas e na tenho many… espere… BASTÃO Ó BASTÃOZINHO!
- Homem não esteja a chamar por quem não está, se é alguém que veio consigo já foi embora à muito tempo e você se não tem dinheiro fica aqui a fazer trabalho comunitário…
- Ó mê sorjas… trabalho ê sê o qué i na gosto, agora isso do comutir…
- Comunitário! Fica aqui durante uma semana a limpar as ruas e a dar o apoio que for preciso noutras tarefas…
Enquanto debitava sentença para o rebelde solitário, dirigia-se para a arca onde as minis refrescavam…
- ONDE É QUE ESTÃO AS MINIS? A ARCA ESTAVA CHEIA!
- Muita tempo aqui mê sorjas e muita calor deu baita sede e uma atrás da outra lá foram…
- EU DISSE UMA SEMANA!? O VERÃO TODO MAIS UM MÊS PARA TRÁS E OUTRO PARA A FRENTE… É ESSE O CASTIGO! E EU NÃO SOU SORJAS! SOU O SR SARG MENDONÇA!!!!

Consta que o verão foi muito curto para aquelas bandas… o trabalho comunitário já acabou…

joaocasaldafonte

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Bastão & Mochilas III

06:00 Horas da manha
Dlimm dlomm
- Estão a bater à porta! Quem será a esta hora?
Espreita pelo buraquinho e reconhecendo o intruso abre a porta
- O que é que estás aqui a fazer e que e que queres? Sabes que horas são?
- Ó “Bastâo” sabes queu na tenho caixadóras comé quesei as horas que são?
- Está bem, esqueci-me disso, mas que fazes aqui às seis horas da manha? Acordas-te cedo não conseguias dormir ou quê?
- Inda na fui à deita quanto mais acordar, e come tava aqui perto vim dar-te a novidade.
- Novidade??? Sem dormires e a estas horas já estou a ficar preocupado vindo de ti essa novidade, mas entra e conta…
- Né preciso! Ê espero aqui! Vai lá buscar as tuas coisas e opois a gente fala no caminho.
- Porra “Mochilas”, estás bêbado com sono ou és mesmo chato?
- As três coisas mas vai lá despachar- te co tempo tá bom e vamos pá praia…
- Para a praia!? Mas quem te disse que me esta a apetecer ir para a praia?
- Anda lá, assim comássim já tás levantado e na tens programa paroje…
- Não sei como sabes mas tens razão e também já não vou conseguir dormir mais, está bem, vamos para a praia, aguenta um bocadinho. Já comeste alguma coisa?
- Por acaso… não há baiucas abertas e os morfes já cá na entram à uma baita dóras, se tiveres por ai uma fatia de pão já se comia
Duas sandes de fiambre uma de queijo e duas minis depois
- Estou pronto! Vamos embora?
- Bora! Né melhor levar umas sandochas pó caminho?
- Não é o que tens estado a fazer?
- Ê tive a matar a larica, os morfes pó dia na fiz nada porque na sei o que tu gostas de roer
- OK amigalhaço, eu faço as coisas, não te esforces nem te sentes para não adormeceres
Hora e meia e muitos roncos depois, na praia
- “Mochilas”… acorda… chegámos…
- Já! Andas depressa! Onde é que tamos? É pá… já ali tão banhistas… são malucos, quem é que vem tã cedo pá praia???
- !!!!!!!???????????
- Mas os gajos veemne de botas e todos equipados pá marcha… arreados assim pá praia só os desregulados da moleirinha, na achas?
- É malta do grupo do Francisco, devem vir fazer uma caminhada nestas arribas! Vou lá falar com eles
Dois dedos de conversa e
- É isso mesmo! Vão daqui da Praia Grande à praia do Magoito passam pelas Azenhas do Mar e regressam aqui
- É pá, deve ser baril! E sa gente fosse com eles?
- Tás maluco! Não estamos calçados nem vestidos para andar por ai a caminhar sabe-se lá por onde! E comida e água, onde estão? Nem penses nisso!
- Ó “Bastão”… tu és um bacano, mas… às vezes tens arremedos de miaufa que ma repanham. Atão tu tás sempre a dizer co que conta é o esprito daventura e mais uns bitaites pa convencer cá o “Mochilas” e agora negas-te a um programa mais à manera do dia doje… que tá bonito mas tem o mar carrancudo e o sol na parece vir com força pá gente tár ali esparramerados no areal pa ficar insolados
Convencido e com autorização do chefe, alinhou e, assim se mudaram as voltas dum dia que começara sem elas
- Ó “Bastão” isto assim dá sono… nem subidas nem descidas só alcatrão… isto na é do Francisco!
- ……………
- Gaita paristo, tamém né preciso exagerar… caminhos cheios de mato e restolho? Tábém, apanhamos um ribeiro a cair pelas pedras para um lago ali todo bonito pa eu dar um fresco ós pés mas depois veio aquela ladeira dareia que nunca mais acabava e a seguir uma ladeira de tojos que na tinha caminho e eu já fiz descalço, valeu o descanso pó almoço pa haver uma folga…
- Descalço porquê?
- Porque o atilho do chinelo que passa entre os dedos do pé desencaixou-se e o chinelo na se segurava…
- Eu bem te disse que não tínhamos calçado apropriado…
- Falas bem mas tu vens de sapatinho e meia branca com raquetes de ténis, é sapatinho de vela mas é sapato e eu só de chinelo da feira da ladra…
- Tens razão mas as caminhadas são mesmo assim, apanha-se de tudo para não faltar nada por isso temos de vir preparados, nós viemos para desfrutar de coisas boas mas sem as condições ideais para nos sentirmos confortáveis… olha, estamos a chegar às praias agora é só areia e as ondas do mar e tu vens fresquinho com esses calções e t-shirt e o pessoal que vem todo vestido vai sentir imenso calor…
- Praias? Aonde?
- Lá em baixo não vês a seguir a este passadiço de madeira? É a praia do Magoito!
Alguns metros de areia passados e
- Espera um bocadinho “Bastão” andar descalço nestes pedregulhos moi os calcantes tenho dir devagarzinho…
- …………………..
- E esta aqui que praia é?
- Praia da Aguda!
- Ááááááh… e vamos lá pa cima como?
- Por aquela escada…
- “BASTÂO” tens quir ao pé de mim e agarrar-me a mão… sabes quê sou vertiginoso e posso cair… na queres ficar com pesos a moer-te pois não?
- Não claro que não… anda lá que eu não te largo medricas do caraças…
- Medricas não… é mas é o espalhanço qué grande e a gente fica esborrachados na alcatifa sem ter tempo pa dizer ai…
- Pronto, chega-mos cá acima, agora vê a paisagem que é linda…
- Tenho de dar-te razão mas quase na tive tempo pa ver porque tá tudo com pressa e já lá vão por ai fora
Passados quilómetros por ai fora
- Olha “Mochilas” estamos em Azenhas do Mar…
- E depois? Na tem praia!
- Não tem praia mas é um recanto na costa muito pitoresco e belo! Vê como as casas descem em cascata pela falésia, desafiando o mar que se esmaga contra as rochas libertando ondas de espuma. Esta força da natureza, que o homem desafiou, dá um toque de poder e resistência que nos presenteia com o seu encanto…
- Bolas “Bastão”, bastava dizeres que gostaste da coisa e eu entendia, assim falaste falaste os gajos foram-se embora e eu cá acho que sem praia na tem graça nenhuma… vamos lá senão perdemo-nos
Algumas chineladas à pressa para não se perderem
- Isto sim com praia e garinas e o mar bom pá gente ir ó banho…
- É a Praia das Maças mas banhos nada para não nos atrasarmos…
- Só um mergulho ou dois… tou em calções é só tirar a camisola e catrapum… vês já tá e ainda os apanhamos a passar o rio… pra mim é só tirar os chinelos e já tou no outro lado…
- Ainda bem que é assim vamos lá andar que já estamos perto e eu estou a ficar com fome e sede…
- Fome e sede!? Mas trazias comida…
- Que tu comeste a maior parte para além da que cravaste aos outros… não admira que não te dê a fome… o teu estomago está sempre primeiro…
- Isso é injestiça, deixei uma maça e uma barrita de cereais, na gosto daquelas… porra! Agora fiquei descalço, os chinelos pifaram de vez… tenho de ir devagarzinho… vais comigo? Ê na sê o caminho e acho que me vou sentir pendurado
- Vou contigo… falta pouco já não nos perdemos
Mais uns metros descalço
- Chegámos! Olha … estão aqui os bombeiros a fazer exames!
- Bora lá… acho que tou com qualquer falta
Exames depois
- Então, o que tens?
- Nada! Dizem que na acusou nada de anormal… pa ir comer e buer quisto deve ser por falta dalmoço e do esforço dandar tantos quilómetros
- Vamos então comer e beber qualquer coisa e para a próxima que queiras caminhar vê lá se dormes umas boas horas para estares fresco e pleno de energia para não andares com rabugem todo o dia
Foram então petiscar, não se sabe o que foi a ementa mas desconfiasse que meteu minis


joaocasaldafonte

sábado, 4 de maio de 2013

De Ródão a Ródão pelo Conhal do Arneiro







 O tejo acordou, espreguiçou-se, abriu as águas e escondeu o trilho que acompanha a margem onde um gigantesco rochedo faz de ombreira ás portas que em Ródão lhe franqueiam a passagem.






Nada que importunasse os aventureiros que, já avisados e precavidos, tiraram do descanso o serrote, suposta salvação para abrir caminho entre vegetação labiríntica.






 Não foi o serrote mas o bastão que, manejado com denodo e vigor por valentes batedores peritos nas tarefas de abrir passagens enquanto os impávidos turistas se deliciam com os idílicos recantos da paisagem, deitou por terra o mato mais assustado que assustador, engalfinhado numa mural teia mas fraquinho para resistir a umas empenhadas bastonadas.




 

E nisto… – CÁ ESTÁ ELA! a informação antes do… - CUIDADO!!! o aviso veio com um enorme vrrruuuuummmmm… de pedras rebolando até que um leito no caminho as amansou e onde se deitaram a descansar enquanto não se ouvisse de novo… - CUIDADO! VENHAM COM CALMA!







E o cuidado entranhou-se naqueles corpos que subiam a encosta pejada de pedregulhos, que não os incomodava pelo esforço, mas inundava-os o receio dum pé mal apoiado em pedra móvel e lhe desse o jeito para deslizar numa vertigem roladora deixando pelo caminho penteados de risco ao meio nos alpinistas mais atrasados.










 
Meia encosta e um pequeno recompor da fadiga alimentando a vista com o que o que fora feito e o que havia para fazer.






Para cima é o lema, para cima era o caminho.





 
A pista até ao topo foi como entrar na selva virgem onde o mato as lianas as árvores abraçadas umas nas outras por ramos enormes e folhas densas, eram empecilhos vencidos entre escarpas de pedra e o rio deleitado no horizonte. Não era esforço sobre humano. Era um desafio à natureza vigiada por Grifos que, voando entre nuvens que ilustravam o imenso quadro azul, esperavam o tombo do mais fraco para um banquete de aprumo divinal.










Foi sorte que lhes não deram os intrépidos aventureiros.













Inteiros e contentes, chegaram à esplanada da varanda sobre o Tejo 











onde o olhar se evade pelos quatro cantos da rosa dos ventos, ponto de miragem para mundos atordoantes. 










Ai saborearam o prazer duma paisagem dum paraíso aqui tão perto, saboreando a doce banana no time que já tardava. 







Repouso merecido. Repouso encantado. Repouso em companhia das aves que se tornaram amigas acompanhado com seu piar as peripécias e galhofas que por ali jubilavam. Repouso que não teve uma casca de banana atirada para o vácuo e levada pelo vento no ar limpo e liso que se respirava no penhasco aquecido pelo sol.









Havia muito para andar, havia muito para ver. 






Se estavam em cima o destino era para baixo e a descer se chegou ao outro lado das portas, tão prazeirosas para o rio... 










tão excitantes de aventuras para lunáticos caminheiros, que só não se banharam no lago, ali remansoso... 








porque o tempo não esperava e o “ouro” do Conhal descoloria.








Outra pedreira. Mais modesta na distância empinada, mais soberba na distância nivelada.





Conhal de seu nome. Onde as pedras em tempos valeram “ouro”. Desconhece-se a quem essas  pepitas deram conforto, sabe-se que, do que restou, apenas se goza do que a vista absorve depois do desconforto.


Conforto que veio nos metros seguintes por





campos coloridos



memórias abandonadas






montes perfumados







ladeiras ensarilhadas









até ao Arneiro para um retempero: muscular, alimentar e nivelação de líquidos contra desidratações. Uns optaram por cevada fermentada os outros foram para o sumo de fruta porque o balão está onde se não espera e no fim a geladinha é de sabor mais animador.


Pernas ao caminho pela tarde aquecida pelo sol atulhado em temperatura. 


O Tejo deu entrada ao Nisa 
e a aventura foi pelas margens do rebento colorindo os caminhos onde as formas e cores das flores compunham quadros que aos pintores fariam inveja.



Numa enseada duma represa onde se cruzam caminhos, registou-se o grupo para a posteridade.



Subiu-se o rio contra a corrente, ora serena ora agreste, deixando recantos bucólicos, pasto de sonhos para sonhadores famintos.








O percurso a pé a certa altura fazia entroncamento com o percurso do rio. A passagem para o outro lado não resistiu à corrente e deslocou-se para sitio incerto deixando as margens ligadas apenas por agua que tinha por capricho molhar qualquer coisa que nela entrasse. 




E foi pela ponte que a imaginação ergueu,






que se aperaltaram para a passagem do rio levando os tamancos aos ombros enquanto os pés nus passavam as pedras lisas e as águas de ténue corrente que deslizava entre margens de vivo verde.


O sol escaldava e os kms castigavam. 


Valia o prazer do que viviam e viviam cada subida como um encontro com a passagem para o outro lado do espelho, como Alice, que viveu maravilhada no mundo da fantasia. 






No cimo dos monte, expandia-se a mente e voavam como Milhafres ou Cegonhas em busca de sementes que lhe alimentassem a alma.








Ao longe avista-se a serra onde as portas simbolizam a estreita passagem para o paraíso. Estavam perto da chegada e do fim duma aventura nesse paraíso descoberto para lá da passagem que tornaram larga.











A ponte que os vira partir, recebe-os à chegada recordando-lhes,







num olhar sobre o Tejo que deixara de se espreguiçar e mostrava o trilho que antes escondera,









que o rio é um afluente do tempo que nos pertence, desagua em nós e somos nós o seu amparo.









 






Depois foi a geladinha, huuuuummmmm…. Soube mesmo bem!  

joaocasaldafonte